Após 12 minutos de espera no ponto, lá vem o ônibus, com sorte nem tão cheio como é de costume. Uma olhada rápida pra encontrar uma cadeira vazia – prefiro aquelas sozinhas, assim não corro o risco de um vizinho chato a me amolar. Nada, o teen acaba de roubar o lugar perfeito, resta a dúvida: sentar-me com o tiozão pançudo ou a velhinha que carrega flores.
Continuo a procurar uma musica no tal iPod. Não pode ser muito triste: acabei de me despedir do meu amado no aeroporto internacional depois de apenas uma semana casados e estou evitando chorar; não pode ser muito alegre: queria manter o nó na garganta até nos falarmos de novo no Skype, assim ao vê-lo a carga de emoção será tamanha, tensa e relaxante, que continuarei sorrindo exageradamente por meia hora (adoro cãibra de sorriso).
Ela chacoalha o ramo de hortelã quase na minha cara, fica difícil não me desconcentrar dos carros que ultrapassam o nosso bus. Desconecto a orelha direita pra entender o que diz. Idosos nunca reparam se você está usando fones de ouvido e podem conversar por minutos mesmo que você não esteja ouvindo nada:
“...ai ela me falou pra pegar. Gente, que perfume, parece até que a gente tá no campo. Será que se eu colocar eles na água eu consigo fazer raiz?!”
Estou um pouco confusa ainda, desconecto o ouvido esquerdo e concordo com o perfume. Raízes? Eu sei lá, concordo por falta de opinião.
“Ela me deu as flores do jardim dela acredita?! Ai me falou assim: põe do lado da foto do seu marido. Sabe, cinqüenta anos juntos ai dois meses depois de comemorar ele morreu. Mas é que a doença dele sabe, já tava muito avançada, coitado.”
Tive certa curiosidade, "que doença" pensei, mas só disse um sincero sinto muito e voltei a acompanhar os carros, um deles passou com um labrador caramelo.
“Porque depois de tantos anos um se sente sozinho no mundo. Eu me sinto desprotegida. Eu tenho medo às vezes, foi toda uma vida.”
Ai meu deus, ela tem os olhos marejados. Ela olha pras flores e limpa rapidamente uma lagrima que fazia seu caminho em direção à maça do rosto.
“Sabe senhora, o importante é que a senhora pôde viver cinqüenta anos com o seu companheiro e que foram bons anos. Poucas pessoas tem essa chance, de encontrar a pessoa certa e tê-la por perto por toda a vida.”
Pronto, agora ela vai balançar positivamente a cabeça e vamos mudar de assunto, sim? Não, ela suspira e olha o infinito, a sensação que tenho é que ela quase o culpa por ter morrido. Como ele pôde fazer isso, tamanha traição depois de 50 anos de casamento: morrer e deixa-la aqui.
Continuamos a conversa por toda a Viale Campânia, Romagna, Piola, Lombardia. Aprendo que ela voltou a trabalhar durante as manhas, pra ver gente, pra sair de casa. Aprendo que os filhos são distantes, as noras implicantes e os netos uns amores. Ela se prepara a descer no próximo ponto.
“Sabe, o domingo é o dia mais difícil, os filhos tem as suas coisas, mulher, família. Domingo é o dia mais triste, signorina. Allora, una buona giornata a lei, vado a comprare un pó di frutta.”
E desceu do ônibus, me deixando com o nó na garganta que nenhuma musica alegre poderia tirar.
Nice story. Keep writing for us. You have a beautiful perspective on the world.
ReplyDeleteNão posso com isso não!!!!! snif ...o Ryan tem razão.
ReplyDeleteGraxinha hein... tá indo bem na escrituração hein??? :p Bjoks!
ReplyDeleteVi!