Sunday, July 18, 2010

Sem dúvida, o melhor texto até agora!

Quanto mais se cresce, mais se tem certeza de que a vida é feita de incertezas. Quando se é bem pequenininho e um ano dura toda uma vida, é fácil ter uma resposta pronta pra tudo. Tereza tinha certeza, por exemplo, de que quando alguém morria se transformava em uma estrelinha no céu. Que quando ela dissesse coisas bem enroladas e incompreensíveis estaria se comunicando em uma outra língua. Ela também tinha certeza que todos a amavam, que domingo era dia de ir pro clube, que sorvete de morango era o mais gostoso. Desde seu nascimento todos comentavam que Tereza era uma menina cheia de certezas.

Então ela foi crescendo, o tempo foi se gastando e Tereza foi aprendendo a duvidar. Aprendeu a ganhar nota baixa na escola e a duvidar do seu potencial, aprendeu que a universidade não é pra todos e a duvidar de suas escolhas, Tereza aprendeu que ganhar dinheiro é difícil, que camisinha fura, que nem todo mundo é legal e a duvidar de que a vida seja justa.

Então a cada manhã lá estavam elas, misturadas com qualquer fio de cabelo na fronha do travesseiro. Uma a uma suas certezas foram deixando sua cabeça e um dia, enquanto se preparava pra escovar os dentes depois do café, Tereza deparou-se com o espelho refletindo assustado uma enorme careca. Ele preferiu não lhe dizer nada, ela também calou perplexa; ambos se olhando incertos: agora, completamente.

Não sabendo o que fazer, pensou em voltar para a cama e acordar o marido. “Mas e se ele se assustar mais que o próprio espelho? E se de susto ele perder também suas verdades e as dúvidas, de tão fortes, começarem a pipocar na superfície de seu crânio como brotoejas?” Na dúvida, enrolou uma toalha na cabeça e voltou para o quarto: “se é preciso acorda-lo, que seja sem surpresas” – pensou Tereza.

Eram quase três da tarde quando o marido entrou às pressas no apartamento onde a mulher o esperava duvidosa. Ele chacoalhava a sacolinha de plástico azul enquanto corria ao encontro da esposa. Tendo que enfrentar seu reflexo calvo mais uma vez, Tereza deu os últimos ajustes ao seu novo acessório. “Sintéticona” – disse o marido – “o melhor que pude arranjar num domingo”. De fato a peruca chanel castanha não lhe caia mal, apesar da cor uniforme lhe dar um certo ar de seriedade. Será que alguém notaria a diferença no trabalho? Tereza poderia ligar dizendo que não se sentia bem, mas não tinha certeza se essa seria uma boa idéia.

Então na manhã seguinte qual não foi sua surpresa ao ver que ninguém dos seus colegas havia notado que ao invés de sua cabeleira costumeira, jazia em sua cabeça um amontoado de fios sintéticos. Uma garota simpática de cabelos macios da recepção elogiou o novo corte, já do chefe grisalho ouviu um: “Excelente, senhora Pascoal”, mas ficou na dúvida se ele se referia à peruca, ou ao seu novo projeto.

Por telefone ela havia explicado a situação à mãe - que parecia não compreender a gravidade do problema - e durante o almoço as duas se encontraram. A senhora, uma amante das colorações e apliques, se apresentou com uma caixa de presente rosa e um cartãozinho, tom sobre tom. Ao abrir a surpresa, Terezinha, como era chamada pela mãe, deparou-se com um modelo capilar muito mais sofisticado e muito mais loiro que aquele que então portava. No cartão, explicou dona Berenice, havia o telefone de um excelente cabeleireiro, conhecido nacionalmente por seus dotes em fazer crescer cabelo até onde não deveria.

No decorrer da semana, por conselho de amigos, Terêreca – como eles a chamavam – também consultou-se com alguns terapeutas, acupunturistas, tarólogos e neurologistas. Nada, porém, parecia haver efeito sobre sua calvície de fios e de certezas; e o tempo, como sempre fizera, foi passando. Os mais chegados, aqueles que conheciam seu problema, continuavam a presentear-la com os mais diversos tipos de cabeleira e soluções: uns traziam cachinhos, outros citavam a bíblia, outros ainda argumentavam a ciência enquanto sugeriam novas técnicas de implante capilar.

Por agradecimento, ou por necessidade, Tereza trocava perucas e opiniões conforme a ocasião. Quando saia de balada usava um corte pós-punk para os amigos mais moderninhos, com a mãe se transformava em uma loira suntuosa, no trabalho usava seu chanelzinho sério, que não levantava suspeitas, com os amigos era a morena cacheada e confiante e com a família mantinha longos fios rebeldes, mas sempre amarrados com uma fivela dourada.

Todos pareciam empenhados – se não em resolver o seu problema, ao menos em aumentar sua coleção de perucas. Era de se admirar, diziam os amigos, como de um dia pro outro Tereza passou a ser decidida, forte. “Inacreditável”, pensava a mãe, enquanto agradecia aos céus por finalmente ver sua filha com um ar de vencedora, falando como uma verdadeira mulher de sucesso. O chefe também havia reparado em qualquer mudança na senhora Pascoal: mesmo os antigos projetos, descartados por ele, acabaram repensados por conta de tamanha segurança que agora a mulher resplendia.

Mas a verdade é que a noite, quando se fechava no banheiro para desmontar seu penteado, Tereza sabia que ali, no topo do seu ser, reinava uma evidente falta. Uma falta que uma bandana colorida tentaria esconder até a manhã seguinte, quando ela voltava a ser a mulher cheia de certezas, pelo menos para o resto do mundo.

E foi em uma dessas noites que o marido, até então um observador calado, resolveu se manifestar. Roberto aproximou-se de Tereza decidido, como era de seu costume e gentilmente levou as mãos da esposa aos seus cabelos. Ela os tocou carinhosamente, mesmo sem ter certeza do porque do gesto. Eram de uma maciez! Ao seu pedido, a mulher então fechou os olhos ao que seu tato, de improviso deixou de encontrar os fios dourados que ela tanto adorava. Reabriu os olhos rapidamente e qual não foi sua surpresa ao ver o marido completamente careca!

Mais incerta do que nunca, a mulher agora dividia sua atenção entre o crânio pelado do esposo e sua cabeleira estendida na poltrona ao lado. Nas horas seguinte, Roberto passou a explica-la como muitos anos antes havia perdido todas suas certezas, e com elas seu precioso cabelo. Mostrou-a sua coleção escondida no alto do armário, que diferentemente daquela de Tereza, era composta por modelos exatamente iguais. Tereza escutava atenta: apesar da loucura que cercava toda aquela situação, parecia entender e aceitar tudo o que o marido a confidenciava. Mas ao final daquela noite era uma a dúvida que a assombrava de verdade: se o marido havia realmente perdido todas suas certezas, como poderia ele estar certo de que ela era a mulher de sua vida? O que havia sido feito da certeza de que viveriam juntos e felizes para sempre?

- De fato, eu não tenho certeza de nada disso – confirmou o marido, deixando a mulher ainda mais confusa e triste – No entanto, é isso o que eu quero que aconteça – continuou – Quando perdi minhas certezas aprendi a seguir minhas vontades.

A manhã seguinte procedeu como qualquer outra manhã de domingo: ovos mexidos, pão na chapa, suco de laranja e café. O casal leu o jornal juntos na varanda e no final da tarde - cada um com seus fios falsos e suas incertezas - saíram para um passeio a pé seguido de um sorvete. Nada parecia ter mudado naquela casa de carecas, só a certeza de que além das dúvidas, ambos partilhavam as mesmas vontades.