Thursday, June 17, 2010

Contando história

Ninguém sabe dessa história, mas eu vi e posso contar. Acontece que depois daquele inverno que a formiga deu casa e comida pra cigarra, essa decidiu tomar uma atitude na vida e deixou de lado a cantoria. Bom, não assim completamente, claro que a cigarra dava uma cantadinha aqui e outra ali, mesmo porque a formiga acabou confessando que adorava aquela melodia. Então foi isso, as duas ficaram nessa, recolhendo folhinha o outono inteiro. Às vezes rolava até um luau da cigarra, a formiga convidava o formigueiro todo, churrasco de graveto, o maior barato.

Mas ai chegou outro inverno e a formiga se ligou que a cigarra tava na maior angustia, com uma cara puta deprê – e isso eu vi porque eu tava lá – e foi quando a formiga decidiu bater um papo com a colega:

- Não formiga, não é nada meu. É que tá foda, sabe? O ano inteiro catando essas folhinha, eu preciso dar um rumo na minha vida. Sabe, tem uma história rolando aí de uma banda, “Os Insetos”, cê tá ligada quem são? E os caras precisam de um baixista que faça backing vocal e é isso, velho, acho que eu vou com os caras.

Putz, a formiguinha ficou irada!

- Você é difícil mesmo, né cigarra. Porra meu, não faz um ano você tava ai, congelando. Se não fosse a gente, se não fossem essas folhinhas ai que você fica falando, você tinha virado casquinha só. Vai tocar baixo agora?! Desde quando cê toca baixo?
- Eu arranho um Legião no violão, ué! Pô formiguinha, vou fazer o que? Passar o resto da vida aqui com a tua galera, cantando no chuveiro?
- Qué cantá? Qué cantá mesmo? Então vai pro Bom Motivo, meu! Vai no Ídolos!! Mas não vem com essa de “vou viajar com uma banda tocando baixo”. Concentra bicho, você precisa de foco, tá entendendo? Cigarra, você é brother, mas tá vacilando…

E ficou nessa mesmo, a cigarra naquela cara de bunda e a formiga meio puta e tal. Até o dia que nevou, que é quando as formigas se recolhem pro ninho, pra só colocar a carinha pra fora na primavera. Bom, entra todo mundo e cadê a cigarra? Nada. Corre pra cá, corre pra lá: sumiu a bendita. E pior que a formiga ficou mó tensa, e chama a galera pra fazer busca e isso e aquilo. Nada. E nem dava mais pra esperar também, porque depois que neva mesmo, o bicho pega: quem entrou, entrou, quem não entrou virou história.

O inverno inteiro aquele climão de velório. Mas finalmente chega a primavera e lógico, festão! Todo mundo animado e eu claro, como todos os anos, fui tomar aquele néctar com uns camaradas abelha pra comemorar, né! Chego na colméia o que é que eu vejo? Ali na parede enorme: um cartaz pro show dos “Insetos” com a cigarra com um baixo na mão (e uma roupinha bem ridícula de metaleira, mas tá beleza).

Fiquei besta, corri pro formigueiro pra contar, mas acho que fiz mal, porque a formiguinha ficou ainda mais chateada, achou palhaçada a cigarra ter sumido, enfim. Acabou que o assunto morreu assim e ali no formigueiro ninguém nem tocou mais nisso. Com o tempo a história que ficou foi aquela que vocês já sabem, mas eu tava lá, pode acreditar que è papo sério. Palavra de Borboleta…

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