Para Quando Eu For Grande 2007-2008


Domingo
São 4 e quarenta da manha. Já assisti 10 episódios do meu seriado preferido. Há quase uma hora estou deitada no escuro tendo conversas fictícias com mil pessoas que conheço, algumas só de vista. Me sinto culpada por ter ido embora do trabalho hoje.

Tomei um porre no sábado. Quis tanto comemorar meu primeiro ano de Itália. Era eu a única empolgada com a data. Passei o dia bem, mas a ressaca era de efeito retardado. Como num passa de mágica minha cabeça se transformou numa panela de pressão, meu estomago era um liquidificador e meu intestino…bom, qualquer eletrodoméstico com um vazamento poderia fazer o papel de intestino. Tive que pedir arrego.

Das minhas mais antigas lembranças de escola já me vejo pedindo pra que a inspetora ligue pra minha mãe: “Tia, eu to com muita dor de barriga, liga pra minha mãe me buscar, por favor”. Quando entrei no colegial minha mãe não caia mais na historia da dor de cabeça, enjôo, mal de estomago, vista que escurece, dor de garganta; tive que apelar aos problemas femininos. Pra que as cólicas menstruais que eu dizia ter fossem verdadeiras eu deveria ficar menstruada ao menos 3 vezes por mês. Mas que se dane, todos os meus professores sabiam que era mentira, e sabiam que eu sabia que eles sabiam. Acho que até minha mãe sabia.

O fato é que depois da escola minha necessidade de escapar das obrigações não era mais a mesma. A faculdade era uma escolha minha, ninguém controlava minha freqüência, ao menos não tanto, e bastava levantar-se da sala e ir pro bar da esquina quando as coisas pareciam muito chatas. Acontecia sempre, 30 minutos depois do inicio de cada aula.

Depois veio o trabalho. Tinha em mente que deveria ser responsável, ao menos ali. Mas afinal eu trabalhava não por outro motivo que grana pra balada, e mesmo assim sempre soube que meus pais jamais me deixariam na pindura. Ou seja, querendo era só abandonar o posto, quem se importa: “se aquela grossa levantar a voz mais uma vez eu peço as contas, eu não preciso desse lugar pra viver”.
É verdade eu não precisava.

Hoje enquanto descia os degraus do deposito pra pegar meu casaco e ir embora um cliente fez o “sinal do garçom” pra que eu fosse atendê-los. Ali entendi o quanto estava mal e precisava ir pra casa. Não suporto o sinal do garçom, normalmente sacaneio os clientes que se comportam assim dando cerveja quente ou cockteis aguados. No caso desse tio não, só senti raiva. Durante aquelas horas quis atirar no DJ, não escutava sequer uma palavra que vinha do barman e enforcaria um a um, cliente por cliente.

Quando um lugar não te importa ou as pessoas que convivem ali com você, é muito fácil tocar o foda-se. Correção: quando um lugar não te importa, nem as pessoas que ali convivem com você, nem o que se recebe em troca de freqüentá-lo, agora sim è muito fácil tocar o foda-se. Estimo muito o meu trabalho. Adoro a companhia. Dependo absolutamente da grana que ganho ali. E mesmo tendo passado as ultimas 8 horas me convencendo de que não estava fugindo das minhas responsabilidades não pude deixar de me sentir o tempo todo como a pré-adolescente que acreditava poder enganar a todo mundo, inclusive a ela mesma.

Meu maior desafio de menina grande tem sido ser grande e me assusta pensar que estou condicionada a sentir-me em culpa cada vez que uma das minhas escolhas possa parecer uma desculpa. E talvez isso venha a acontecer a cada nova decisão.
Bom,a não ser que eu siga o conselho da prof. de literatura do cursinho: “ E só faltem amanha em caso de morte própria!”.

Manifesto feminista
Gosto mais das propagandas que dos programas exibidos na TV. Normal, sou de ‘85, fui criada pela Rainha dos baixinhos e tive como melhores amigos ‘Tom e Jerry’. E assistindo tanta TV noto cada vez mais produtos dedicados a mulheres na faixa dos 30, 40 anos e uma das chamadas que mais incomoda é do intestino preguiçoso. Mulheres de todos os tipos esfregando a própria barriga enquanto fazem comentários do tipo: ‘Eu me sentia inchada, mas ‘Activia’ mudou tudo. Ai eu penso, porque só mulheres? Desde quando NÓS temos problemas pra cagar e os homens não? A resposta é simples: machismo!

Todo mundo conhece um tio peidorreiro ou um primo que arrota o alfabeto. Todo mundo teve um irmão que depois de usar o troninho chamava os amigos pra se vangloriar da sua mais recente escultura marrom. Mas eu não conheço uma, sequer uma mulher que beba um copo de Coca-Cola em um gole pra depois soltar um belo arroto “te amo” ao namorado.

Me ofereço como exemplo. Cada vez que meu namorado vem passar a semana em casa dobro de tamanho. A parte ir ao banheiro uma vez a cada dois dias em vez de duas idas diárias, não consigo deixar escapar nem meio punzinho. Na última vez que nos vimos, eu assistia “Gênio Rebelde” quando Robim Williams diz ao seu paciente, Matt Damon: ‘Uma vez, dormindo, ela soltou um pum tão alto que acordou até o cachorro’. Não agüentei e cai na gargalhada, dando graças a deus que o meu par não entende uma vírgula em italiano. Ele continuava a perguntar: ‘O que foi? Do que você ta rindo?’ Aquela noite eu tinha me acordado 3 vezes com uma situação daquelas rezando pra que ele não tivesse escutado. É claro que ele tinha escutado, ele até se mexeu na cama.

Mas ‘por que’, eu me pergunto. Porque não posso me liberar impunemente de todos os gases?! Abaixo à repressão! Abaixo ao comprimidos, iogurtes e barrinhas de cereais! Mulheres, rebelem-se: arrotem fazendo barulho!

Tac-tac-tac
Estou embasbacada. Em um ano envelheci 5. Quando foi que eu desisti de ser a Lolita sexy? (Essa frase pode ser considerada um pleonasmo?!)

Por falar em sexy, sexo e afins, já me enjoei do pinto dourado. No ano novo ganhei um vibrador do meu namorado. Direi que é demasiado grande além de ter a ponta de metal (dourado) o que requer um aquecimento pré-uso. Mas a parte a cafonagem de ter um pinto de plástico que vibra, tem me incomodado o modo como esse brinquedo mudou minha concepção de orgasmo.

Faço sexo desde os 14 e levei longos dois anos de prática até sentir meu primeiro orgasmo acompanhado. Diria que nem foi um gran que, mas com o tempo tive a oportunidade de aperfeiçoar a cena. O fato é que com o ‘douradão’ a coisa se tornou mais rápida que cozinhar um Miojo.

As frígidas que me perdoem, mas me orgulha toda aquela aeróbica feminina pra gozar. É como uma longa e cansativa batalha que você nunca sabe se vai vencer. De improviso seus pais podem bater na porta do quarto, seu namorado reparar que você não tirou o bigode, ou quem sabe você se canse: ‘Porque já deu no meu saco esse tira e põe e nada de eu gozar’.

Já com um vibrador é diferente, o vibrador é...é chato pra cacete. Liga, encaixa, suspira, desliga.
Com certeza não pretendo restituí-lo, mesmo porque em qualquer caso ele ainda pode ser útil, mas é provável que meu próximo surto de abstinência causada da Namoradus distantis seja resolvido à moda antiga: Sim vovó, escrevendo uma carta...mas datilografada, tá!?



14 Bises
Cheguei, sã, salva e com um bafo de leão. Acompanhe a lógica: o avião é um meio de transporte escolhido principalmente pela rapidez, mas o custo costuma ser ao menos três vezes o de uma viagem de trem. Então se pode optar por um low-coast - tipo um ônibus da Cometa com asas. Mas neste caso os aeroportos de partida e chegada são aqueles na PQP, o que faz com que o tempo de viagem triplique.

Não tenho medo de voar, mas diria que é um pouco como ir ao dentista: você sofre duas horas de tensão e só se acalma quando o comandante pede para que sua poltrona volte à posição vertical. Diria que no meu caso as semelhanças vão além. Quando aos 5 anos enfrentei a cadeira do dentista pela primeira vez, eu devia ter umas dez caries pra fazer. A Sra. Dra., com muita sabedoria, optou por começar pela maior. Lembro (juro) que nas consultas seguintes meus pais não bastavam pra me manter na cadeira.

Já meu primeiro vôo foi aos 16, sozinha. Congonhas-Malpensa, 12 horas de choro ininterrupto. Na volta, quem confirma é minha irmã, gritava: "Pelo amor de deus não me faz subir naquilo de novo". Tá, mas eu não choro mais no avião.

Aliás, queria entender porque avião faz curva. No céu, quero dizer. Não, antes eu preciso saber porque o sádico do piloto insiste em começar a manobra de aterrissagem girando aquele trem como se estivéssemos dentro de um furacão. No mínimo é um ex-aluno da esquadrilha da fumaça, reprovado por excesso de coragem: "Escuta meu jovem, você é muito destemido, mas poderia por toda a equipe em risco". Aí ele foi na EasyJet e pegou a vaga de comandante.

Da próxima vez embarco com um pára-quedas...

Tanti auguri!
Quem te diz quando é hora de crescer e procriar?! Uma amiga - correção: duas - acabam de ser mães, faz poucos meses. E outro dia eu estava no segundo colegial com uma delas, numa casa de praia, raspando a bandeja de um bolo de maconha. A filha dela é linda, mas quem disse que era hora?! Ela também seria linda depois.

Dizem que as mulheres amadurecem cedo porque depois de uma certa idade se torna um risco ter filhos. Então você vira gente grande pra poder criar uma gente pequena. Isso é uma tremenda sacanagem por parte da biologia. Se o psicológico e o financeiro não podem acompanhar o hormonal , como é que fica?

As pessoas que tenho freqüentado na Itália estão entrando na casa dos trinta e o assunto é corrente. Não, nenhuma grávida, nenhuma casada, mas todas com princípio de esclerose quando o assunto é maternidade. Como se a ampulheta começasse a perder aquela areia azul pra sempre. Já do lado de lá do Atlântico, quem ainda não teve o primogênito é o aliem da vez.

Que angustia. E nem é por mim. Há um ano eu achava tão lindo. Quer maior título de emancipação que um bebe todinho seu?! Mas e depois, caros leitores? Não era o teu sonho conhecer a Europa? Fazer carreira naquela rádio? Não me diga que tomar porre, voltar as 9 da manha pra casa, dormir pelada no sofá, não te farão falta. Meu Deus! Ainda nem tive oportunidade na vida de dormir pelada no sofá. Não seria o maior dos acontecimentos, mas não posso abrir mão, não antes de provar. E indiscutivelmente ter filhos é abrir mão de coisas menores.

Não, não posso sequer ter um cachorro no momento "quem cuida dele quando você vai pra Berlin?". O bispo...

Wikipédia
Quando eu era pequena costumava encher o meu pai com uma pergunta que até hoje me rodeia: mas não existe um lugar onde se respeitam as regras? Não sei porque eu costumava a acreditar que algumas pessoas só poderiam viver cercadas de regras, burocracias, ordens. Claro, eu cresci. Pois não é que descobri que esse tipo de gente existe?!

Os Respeitandun tudus são pequenos animaizinhos que tem pavor de infringir qualquer tipo de proibição, lei ou advertência. Vivem sozinhos, não pisam na grama e são quase sempre motivo de risada entre os outros animais do bosque. Podem ser reconhecidos em qualquer tipo de situação; ao pagar o bonde ou ônibus depois das oito da noite; utilizando as passarelas para pedestres (mesmo as mais inúteis); devolvendo o troco que lhes foi dado a mais. Mas principalmente você o encontra em filas. Ali o Respeitandun tudus se sente em seu habitat natural.

Mas não termina aqui. Este raro exemplar de comportamento animal tem nacionalidade. Cada vez que pouso em Berlin respiro o ar das regrinhas. Obviamente outras espécies não seriam capazes de entender o Respeitandun, esse bicho chato e burocrático. Muitas vezes nem eu os suporto. Mas seria interessante se de repente esse bichinho não fosse assim tão raro.

PS: Ao pequeno e tímido
Respeitandun que
vive em mim...


Gato tem 7 vidas, e eu?
E quem disse que não mata?! Arrependimento mata que nem cigarro: a respirada. E fosse só o arrepender-se do fato, do acontecido. Pior aquele do não fato. Me arrependo sempre, penso o tempo todo no que eu teria feito se não tivesse já feito. Se o que eu fiz se faz, que paranóia!
Parei de fumar, depois de 5 anos arrependida de ter começado. Provavelmente me arrependerei amanha de ter parado tão tarde...
LIGUE OS PONTOS
Se eu...eu seria...?

1. terminasse a faculdade................... mais segura?
2. tivesse um filho.............................. mais completa?
3. largasse meu namorado................. mais livre?
4. roubasse uma grana....................... mais feliz?

Vai brincando, vai...

Vontade de...
Hoje tive meu primeiro sonho com um cigarro desde que resolvi cortar meu vicio, uma semana atrás. Também foi meu enésimo sonho erótico desde que voltei de Berlin, no fim de fevereiro.

Abstinência é foda, tenho já uma certa experiência. Há cinco anos cortei os mamíferos do meu cardápio: ottima scelta. Ai, porque ser natureba era do bem, resolvi deixar de tomar refrigerantes: pééééééééé! Dá-lhe noites de pesadelo e sedes só saciadas por garrafinhas de Coca light de 600ml. Não resisti, e hoje se tem na geladeira e estou com sede aceito um copinho, mas só um copinho! Mais fácil foi abolir o McDonald's.

A verdade é que pra esse tipo de escolha é preciso convicção. No meu caso funciona pensar na minha beauty: carne vermelha engorda, refrigerante da celulite, cigarro envelhece. Fast-food faz tudo isso junto. Badabin! Por isso é que não rolava quando minha mãe jogava fora o meu maço ou ameaçava cortar minha mesada... (aprendeu?!)

Dizem também que dá bons resultados substituir um vicio por outro, mas a verdade é que eu já bebi 5 cafés pensando a respeito e não consigo imaginar uma boa troca.

Vice-versa
NO MUNDO

A: Oi, tudo bem?
B: Tudo ótimo, e você?
A: Tudo também. Ontem fui no cinema ver Galáxias Galácticas com um amigo.
B: Putz! Serio? E curtiu? Dizem que é super bacana.
A: Ah, eu adorei, você deveria assistir...

NA ITALIA

A: Oi, tudo bem?
B: Tudo sim, e você?
A: Tudo. Ontem fui no cinema ver Galáxias Galácticas com um amigo.
B: Que amigo?
A: O Marco, você não conhece.
B: O Marco Alicate?
A: Não, você não conhece.
B: Qual o sobrenome dele?
A: Hum, não sei.
B: Não sabe?! Há quanto tempo você conhece ele?
A: Uns 6 meses acho.
B: E você ainda não sabe o sobrenome? Que tipo de amizade é?
A: A gente está se conhecendo ainda, não pergunto o sobrenome assim do nada.
B: Mas tá conhecendo ou é amigo? Escuta, mas você não tinha namorado?

Quadrinhos
Se a vida fosse um filme eu estaria ainda na cena de apresentação do personagem, lá pelos primeiros 7 minutos de fita. Talvez eu prefira vê-la como um seriado; um bem longo. Assim posso viver cada episódio com pequenas mudanças, mas nada de muito substancioso e o público continua seguindo porque pensa: não é possível, quando ela vai tomar uma atitude?!

Se eu fosse o público do seriado da minha vida já teria trocado de canal.

Histórias pra vovó dormir
Era uma vez uma neta coruja. Não, não coruja tipo aquela que achava os próprios filhotes lindos, coruja tipo que não dorme a noite. Bom, enfim, a neta coruja vivia enchendo o saco da vovó pra que ela contasse histórias antes de dormir, o problema é que, sem sono, a neta continuava a escutar e escutar até que a vovó, sem forças, terminava uma frase com uma bela roncada. Pobre vovó. Pra remediar a situação a netinha resolveu crescer e contar suas próprias histórias, e por que não, conta-las pra vovó. Então vai, começa a saga HISTÓRIAS PRA VOVÓ DORMIR.

Chapéuzinho vermelho, a neta mala

Faziam meses que Chapéuzinho vermelho não vinha visitar a vovó, e elas nem moravam tão longe assim, um bosque de distancia pra dar melhor a idéia. Mas sabe como é: Chapéuzinho agora estava entrando na adolescência, queria só saber de passear no castelo: "Quem sabe hoje não conheço o príncipe?!".

A vovó no entanto não perdia as esperanças, continuava a preparar um bolo de fubá todas as tardes, passava um café e ia pra varanda esperar a netinha. E foi numas dessas tardes que passando por ali a vovó viu o Lobo. Um narigão comprido, o pelo brilhante, duas orelhas pontudas e atentas. Um Lobo boa pinta, com o maior sorriso de lobo. A vovó não perdeu tempo, foi logo convidando o garboso Lupus pra um chá: "Gerente sênior de uma madeireira! Que ótima ocupação o senhor tem!". E papo vai, e papo vem, marcaram um jantar pra sexta-feira: "Porquinho assado", prometeu a vovó.

Enquanto isso Little Hat - apelido pelo qual Chapeuzinho era conhecida na escola - dava mais um escândalo com a mamãe por ser a única a ainda usar o capuzinho vermelho quando a moda ditava o capuzinho azul. A mamãe, de saco mais que cheio, resolve que aquele fim de semana nada de passeio no castelo - "Chapeuzinho, você vai visitar a sua vó".

No sábado logo pela manha Chapeuzinho pegou a estrada em direção a casa da vovó. Preguiçosa que era, escolheu a estrada curta, mesmo porque esta era cheia de barzinhos freqüentados pelos seus amigos de escola, ignorando os conselhos da mãe de passar pelo caminho longo onde poderia dar um pulinho na sapataria e chegar se aquelas sandálias estavam prontas.

Na casa da vovó, depois de um jantar maravilhoso a luz de velas e vinho branco, seu Lobo dormia tranqüilo enquanto a vovó tomava um belo banho refrescante. Eis que se ouve a campainha e logo após a porta de entrada que se abre. ‘É Chapéu!’ pensou o Lobo que aquela noite havia escutado mil histórias sobre a tal netinha, e enquanto tentava se esconder dentro do armário ouvia a voz da garota que gritava pela vó se aproximando.

O Lobo desesperado e morrendo de vergonha não tinha outra alternativa que não deitar-se na cama e fingir-se e morto. Chapeuzinho por fim entra no quarto e se joga sobre a massa encoberta pelos lençóis pra abraçar a pobre velhinha, mas assim que o faz nota qualquer coisa de estranho:

- Vovó, mas que cheiro de Axe Acqua é esse ?
E o Lobo colocando apenas os olhos pra fora lhe responde:
- É, bem, encontrei essa promoção na farmácia, acabei comprando...
- E esse vozeirão rouco? Tá gripada no verão, é?
- Pois é querida, o ar-condicionado acaba comigo.

Mas nesse exato momento a verdadeira Vovó sai do banheiro da suíte vestindo somente um roupão e pegando de surpresa a tonta da Chapéu que começa a gritar e sai correndo do quarto. O Lobo, que não era bobo, sabia que um escândalo como aquele poderia por em risco a moral da vovozinha e por isso sai correndo atrás da teen-ager com a intenção de explicar lhe tudo.

- Um cachorro! Um cachorro! Minha vó está namorando um cachorro! – gritava Chapéu

Ofendidíssimo o lobo a segura pelo braço e com uma cara muito malvada diz:

- Cachorro é o senhor seu pai, e vamos parar com a gritaria que essa aqui não é a casa da vovozinha!

Em silencio e com os olhos esbugalhados, chapeuzinho vê a vovó que se aproxima pedindo pra que a neta guarde aquele segredo como se fosse o dela.

-Nem pensar – respondeu a fedelha – onde já se viu uma senhora com a sua idade namorando um Lobo!
E foi então que o Lobão fez valer sua raça e mostrando lhe todos os dentes disse:

- Sua muleca, abre esse bico e eu como um por um todos os seus amiguinhos da escola!

E foi assim que voltando a casa Chapéuzinho inventou toda aquela história de Lobo mau e o escambal adicionando por fim um tal de caçador que no fim das contas não passava de um colega de escola por quem ela era apaixonada.

A Vovó e o Lobo continuaram namorando e cada vez que ele tira férias do trabalho vão passar o mês em Fortaleza…

Ah, e viveram felizes para sempre…

FIM

Osmar
Às vezes a sensação que tenho é aquela de um náufrago, perdido com seu barquinho em meio ao oceano. Sem água, sem comida e sem nenhuma idéia de como encontrar terra firme. E sinto que é assim porque quis, porque escolhi me jogar no mar de barquinho. É claro que não muito longe fica um outro barquinho, nem tão maior que o meu, mas provido de ração para náufragos e que continua a me abastecer enquanto me repete, "Se você não remar não chegara a lugar nenhum".

Então decido construir uma vela, sair nadando, montar em um golfinho quem sabe, mas um navio gigante acaba de ancorar à poucos metros. Enquanto tento salvar minha pequena embarcação das ondas provocadas por ele escuto umas vozes que vem lá do alto: são os comandantes.

- Soubemos que você anda querendo construir uma vela, verdade?
- E' sim, acho que vou pra oeste...
- Ta certo, então me diz, quantos metros de tecido você precisa?
- Boh, não sei, uns 2, uns 4.
- E como fazemos pra te dar esse material? Você sobe? Sobe sim, faz um lanchinho, dorme aqui essa noite, ou esse mês. Até ano que vem a gente já te construiu um barco novinho!

E eu no meu misero barquinho começo a imaginar que diabos estou fazendo ali, em meio ao nada, boiando e sonhando com uma ilha maravilhosa que talvez nunca chegue. Por que não subo aquelas escadinhas tão atraentes e disponíveis e depois lá do alto não cuspo naquele barquinho de merda cheio de furos?

A única resposta que me satisfaz é que aquela porcaria quem construiu fui eu e que a ilha que procuro só poderá ser alcançada naquela coisinha.

Pois esta decidido, "Aceito o tecido! Mas não subo hoje não, tenho muito o que construir, fica pra próxima".

Vejo que o navio vai embora. Será que os comandantes me acham uma mal-agradecida?!

Espero que o vento sopre mais forte essa noite...

Satellite
Estávamos ali, viagem oficial de apresentação dos sogros - a primeira não foi valida por falta de tempo e língua em comum. Hannover, hambúrguer, Hans Donner?! Nein!
Mais ou menos como na Itália: cidade pequena, rodeada de vilas, rodeadas de vilarejos, rodeados de casinhas imersas em campos de girassol, trigo e essas coisas que crescem na terra.
No fim do jantar insisti pra dar um passeio pela cidade, um pouco por tédio, um pouco porque vigiada pela família dele já estava difícil de dar um beijo, imaginem o resto.

Foram cinco paradas mal sucedidas e entre pasto alto, descampados iluminados por faróis e casais que chegaram primeiro comecei a perder a paciência. Não poderia voltar pra casa naquela secura e ouvir outro comentário a respeito do "barulho que fazia a cama". Não que eu entendesse o sermão da mãe dele, mas entendia as risadinhas do irmão mais velho.

Os ponteiros já passavam da meia-noite e meu bico da janela do carro quando encostamos perto do castelo. Não era um castelo de verdade, ele explicou, mas como se parecia com um e tinha idade o bastante para ser considerado um monumento histórico, a cidade adotou-o como tal. Confesso que me sentia ridícula invadindo o jardim daquele buffet medieval, desviando com cuidado das faixas de luz provenientes das janelas e correndo nas pontas dos pés.

Abrimos o sleep-bag na parte mais escura e também a mais alta por dois bons motivos: um porque tínhamos uma visão linda do campo de trigo a poucos metros de onde estávamos, iluminado somente pela lua. Dois porque eu não veria os insetos e possíveis bichos que vinham daquele mesmo campo. Olhei pro céu e disse que seria impossível ver assim tão bem as estrelas em São Paulo. Continuei dizendo que a nossa poluição e as milhares de luzes da cidade eram capazes de esconder até uma lua cheia. Quando eu exagero ou digo absurdos ele nunca me contraria: sorri e me olha sereno. Ainda não sei definir se é compaixão ou paciência.

Voltamos a olhar pro céu e ele me perguntou se eu já tinha visto uma estrela cadente em São Paulo. Bah! Estrela cadente eu já vi um monte e se cada pedido tivesse sido realizado hoje talvez eu fosse a pessoa com mais casamentos e divórcios nas costas. Pausa de contemplação, quem sabe não aparece uma só pela graça da coincidência.

- E satélite, já viu?
- Como é um? Talvez sim...
- E' uma luzinha no céu, mas só que anda.
- Já vi avião. Talvez eu tenha visto um satélite pensando que fosse um avião...
- Luz de avião tem cor. Um satélite é igualzinho uma estrela. Tipo uma estrela cadente, mas que anda reta no céu.
- Hum, então não vi não...

Outra pausa pra olhar pro céu. Ele recomeçou:

- Sabe porque os satélites brilham como as estrelas?
- "Os satélites"? Mas quantos são?
- Muitos.
E então percebi que ele também gostava de brincar de sabe-tudo, principalmente se tratando de um assunto que eu não sabia nada.
- Hum...não, por que?
- Sabe aquelas asas meio quadradas? (hum) São feitas de placas que captam energia solar (hum) e quando a luz bate ali e reflete parece que é uma estrela aqui pra gente.
- Huuuummm...Mas se reflete, como é que capta?!
-...
Dessa vez o silencio dele foi de compaixão.

Foi naquele momento - agora sim pela graça da coincidência - que vi meu primeiro satélite, caminhando entre mil pontinhos até sumir do outro lado. Por tradição fiz um pedido, mas naquela noite só dormimos...

O meu rosário
Existe um deus, um cretino sádico auto proclamado deus. Um bastardo que joga com as probabilidades. Existem tantos deuses, tantos daqueles seres entediados com a própria eternidade que riem do nosso frágil sistema. São crianças mimadas cansadas de por fogo no rabo do gato; a grande sensação é ver sofrer.

Pau no cú desse bastardo egoísta! Você não teve pai, nunca amou ninguém. Você nunca provou a delicia de acordar ou o prazer que é dormir. Você não sabe dançar, tem tudo e não tem ninguém. Deus de merda, sozinho no seu infinito vazio. Eu posso morrer, com tanto sofrimento quanto for possível, eu posso enlouquecer, esmurrar a parede. Mas eu posso! Eu grito que do seu jogo eu não faço parte.

Deus filho de ninguém, pai de ninguém, amante de ninguém. Nulo como a própria existência.

Amém

Na Andaló: Zero Grau!
Então chega o outono: um friozinho, um vento que limpa todo o horizonte permitindo que da varanda se vejam as montanhas, e que traz aquele cheiro geladinho. É o mesmo cheiro que sentia uma vez por ano na casa da vó Maria em Rio Preto.

Era um acontecimento aquelas manhãs em que os termômetros não chegavam nem a vinte graus. Eu, mesmo sendo a coruja da família, levantava da cama da vó cedíssimo, incomodada pelo gelo dos lençóis de seda. Com aquela idade eu ainda não sabia o que isso significava, só sabia que se me mexesse, se me virasse, acabava passando frio.

Então eu descia as escadas - a do carpete vermelho - e me deitava ali no meio do chão da sala em um dos retângulos de sol que vinham das janelas. Com o passar das horas eles iam caminhando da parede do piano até a parede da garagem e eu ia rolando junto. Só por volta do meio dia, agora pendurada na cabeceira do sofá, me levantava pro café.

A essa hora Rio Preto já estava pegando fogo outra vez e era preciso esperar mais 365 dias pelo próximo inverno. Mas se você entrasse no lavabo, aquele esquecido na sala de estar, ainda podia sentir o cheiro do mármore gelado, do encanamento de ferro, das lajotas de cerâmica ainda mais frias e de Pinho-Sol. O cheiro das manhãs do inverno de Rio Preto.

É mesmo uma bobagem, mas quando chega o outono aqui na Itália, sinto falta do cheiro do banheiro da casa da minha avó.

Era uma vez...
Pergunta pra uma mulher qual a primeira coisa que ela vê em um homem, ou o que a faz se apaixonar por alguém. Tantas tendem a responder o olhar; mesmo porque o resto a gente põe a mão pra saber como é. Mas acho que na verdade acreditamos que o jeito desse alguém enxergar o mundo passa por um mesmo filtro quando nos vê.

A minha primeira paixão, que me lembro ser daquelas fortes mesmo, foi por um garotinho da minha idade. Uma piccola escultura romana, um loirinho de olhos azuis. E que olhos meu Deus! Quando via aquele olhar de dono do mundo sentia até calafrios. A minha primeira paixão pra vida toda sabia ter um pedestal sob seus pés de onde ele olhava o resto dos mortais. Era onde eu estava, era de onde eu o admirava.

Não durou muito. Apesar de encantador, aquele olhar fazia com que eu soubesse sempre qual era o meu lugar ao lado dele: bem lá em baixo.

Quando planejei um casamento com filhos e brigas pela segunda vez optei por um par de olhos mais simples, castanhos, mas nem por isso comuns. O segundo amor da minha vida tinha cílios enormes, quase desproporcionais, quase mágicos. Era assim que ele enxergava a vida, como se cada detalhe fosse encantado. Às vezes me deixava irritada o fato dele ver tanto em tão pouco.

Digamos que depois de um tempo desisti de procurar as cores que ele enxergava e resolvi que as do arco-íris me bastavam.

Na terceira tentativa de ser “felizes para sempre” escolhi os olhos mais sérios disponíveis. Sem frescura, sem enfeites, apenas dois olhos bem escuros, protegidos por um belo par de sobrancelhas respeitáveis, e que fitavam um alvo. Que fosse mirando um carro, uma promoção, uma vida melhor, aqueles olhos (ogni tanto) me punham medo. Era como se nada pudesse detê-los, nada pudesse distanciá-los de seus objetivos. Raras as vezes em que tentei freá-los, não tão raros os atropelamentos.

Quando não pude mais segui-los resolvi criar meu próprio sonho, e então fugi.

Aí aconteceu de novo. Verdes, ou seriam amarelos? Até hoje não sei. Não sei o que havia por detrás daqueles olhos, nem sei pra onde olhavam antes, sei que agora olhavam pra mim. Acordei no meio da noite e eles estavam ali, grudados, talvez tentando me decifrar. E antes do nosso primeiro good bye, enquanto caminhávamos em silêncio e eles ainda me examinavam, comecei a sentir como seu eu fosse uma espécie de novo mundo: pronto pra ser descoberto e prestar veneração ao meu desbravador. Era como seu tivesse qualquer poder mágico que os atraísse, ou talvez mil cores desconhecidas que eles quisessem nomear. Mas soube que daquele momento passava a ser sua maior conquista, um alvo e que aquele par de olhos fariam de tudo pra que eu voltasse.

E tem aqueles que voltam
Ele veio batendo os pezinhos lá da esquina. Tinha uns cinco ou seis anos, cabelos escuros e uma camisetinha verde limão. Olhava pra trás e voltada a bater o pés com mais força, até chegar à frente da minha casa e sentar ao lado da boca de lobo. Pegou umas pedrinhas do chão e as atirava com força. Fez isso algumas vezes e então - talvez tenha se sentido observado - olhou aqui pra cima. Eu estava fumando um cigarro apoiada nas grades da varada do quarto onde um dia ficava o meu. Sorri e ele voltou a atirar pedrinhas.

- Você tá bravo?
Acho que ele fez que sim com a cabeça.
- E por que?
- Meus amigos são uns bobos...
- Bom, os meus também. O que eles fizeram pra você pensar isso deles?
- Eles não me deixam brincar...porque eu sou muito pequeno...Por que você chama os seus amigos de bobos?
- Então, eles também não me chamam mais pra brincar, mas acho que é porque eu fui embora.

Chato criança, eles não sabem aprofundar uma conversa, uma resposta simples basta. Fiquei esperando ainda um tempo que ele me perguntasse porque eu tinha ido embora ou embora de onde, mas ele continuou jogando pedrinhas em silêncio. Eu até pensei em me apresentar e perguntar se ele queria ser meu amigo, então poderíamos brincar juntos; depois rolou um medo de ser acusada de pedofilia e eu desisti.
Estava quase entrando em casa de novo quando ouvi uma gritaria de vozinhas que subia a rua. Eram os bobos dos amigos do meu amigo de camisetinha verde. Ele foi cercado por umas dez crianças maiores e menores que falavam muito alto. Esperei pra ver se estava tudo bem, até que ele subiu numa bicicleta com rodinhas e sumiu com os outros na esquina de cima.

Chato gente grande, a gente nunca sabe bem o que quer e reclama quando as coisas não acontecem do nosso jeito. Fumei ainda mais um cigarro na varanda resmungando sozinha. Bom, aí eu entrei e abri outra cerveja...

Redondamente quadrada
Detesto esse tipo de gente que muda o tempo inteiro de opinião. Hoje te dizem uma coisa na maior convicção, fazem aquele discurso. Amanha, sem mais nem menos, tudo muda e - com toda a naturalidade - te dizem outra coisa completamente diferente.

Esse tipo de gente é extremamente quadrada porque não consegue perceber que em uma moeda sempre existem dois lados e por isso continua a repetir valores muitas vezes ultrapassados. São pessoas que simplesmente não se atualizam e continuam a ter eternamente a mesma opinião.

Eu não conseguiria viver a cada minuto com a sensação de uma verdade diferente, como se na vida devêssemos ter uma verdade eterna. Quando acredito em uma coisa a levo até o fim, mudando sempre conforme o que vou aprendendo no caminho. Afinal é justo que ter uma idéia fixa de cada conceito porque vivemos de mobilidade e de troca de concepções.

Mas quer saber o que mais adoro nesses quadradões volúveis?! É que eles sempre tem razão.

Viele dank
A casa suja, uns copos - não, não são copos, são taças! - com umas marquinhas de vinho de sábado a noite. Roupa pra pendurar, mala pra fazer. Mas eu queria mesmo é sair. Falei com a menina Yael, que é de Israel. Eu adoro repetir que a Yael é de Israel porque faz rima e é muito cool. Falei com Yael e a gente se encontrou em Schönhauser Allee. Ela me contou que por causa da mini-saia recebeu seus dois primeiros assobios alemães. Não é muito fácil ganhar um assobio alemão ainda no início da primavera.

Ela me contava do atendente mal humorado, ela me contava do dia de merda. Tem feito mesmo um tempo de merda em Berlin. Ela me contava e eu quase podia sentir o coraçãozinho apertado de quem precisa fazer confidencias, mas tem medo de se expor pra um desconhecido. No fim das contas, só o que nos une - ao menos por enquanto - é o medo que de tudo errado.

A Yael tem medo que de tudo errado, ela também acha, olhando no espelho, que não precisava chorar tanto. Ela também é uma desconhecida pra todo mundo que ela acabou de conhecer.
Aí falei de mim, lembrei de quando cheguei. Ah! e que tempinho fazia, viu... Um monte de gente estranha, mas a estranha era eu. Duas malas com casaquinhos de meia estação e neve na varanda do oitavo andar, era mais ou menos tudo o que eu tinha.

Bom, na verdade... Se a Yael tivesse conhecido a minha irmã do meio... Digamos que ela me conhece há uns 23 anos, mas só entendi porque ela é minha irmã quando eu a conheci, uns dois anos atrás.

Tentei ser a irmã do meio da Yael e contei pra ela alguns segredos, sobre o que tinham me ensinado, contei dos perrengues mesmo. Falei bem confiante, assim como a minha irmã do meio, que ela precisava ser forte nos primeiros seis meses, que depois tudo ficava mais fácil. Falei pra Yael que ela precisava se dar uma chance e dar uma chance pra todas essas novidades.
Mas ela ainda não me fixava nos olhos: hora pra parede, hora pro cigarro. Eu achei que a Yael quisesse chorar.

Ah, se a Yael tivesse conhecido minha irmã mais velha... Ela também me conhece desde sempre, mas ainda é um mistério pra mim. Eu só sei que se alguém me batesse na escola ela me defendia, depois ria da minha cara quando chegávamos em casa.

Se a Yael fosse a irmã mais nova da minha irmã mais velha ela poderia ter pego a U-Bahn pra casa chorando no telefone com alguém - que não é pai nem mãe - que diria a ela pra voltar. Alguém que cura e que diria que ela faz falta. Então seu coraçãozinho voltaria ao tamanho normal.

Eu não podia tentar ser a minha irmã mais velha da Yael, mesmo assim lhe dei um abraço apertado e repeti que ela ficaria bem. Afinal, ao menos por enquanto, eu sou só uma desconhecida com medo que de tudo errado, mas com a vantagem de ter duas pessoas que transformam tudo numa coisa um pouquinho mais fácil.

O dia em que eu morri
Eram 5 passadas e fazia um sol de 3 da tarde. Eu continuava a escrever melancolias um pouco cafonas e a me entupir de chocolate ao leite e avelãs. O dia tava tão seco e o cretino tinha levado embora a última garrafa de água com gás.
Não sei se foram as avelãs, o cigarro ou essa vontade que sempre tive de sentir uma depressãozinha. Não, espera! Fala pra todo mundo que eu bebi o vidro de acetona e que já estava tão bêbada que não deu nem tempo de enfiar o dedo na garganta. Foi, foi suicídio! Quem está com a auto-estima tão baixa não merece morrer tossindo um pedacinho de chocolate.

Passei os próximos três dias ali, meio torta no sofá, endurecendo e pensando na nojeira que é apodrecer. Prefiro não dar os detalhes de quando me encontraram. Uma amiga chegou a ligar algumas vezes, mas desistiu quando a bateria do celular acabou e as ligações cairam diretamente na caixa de mensagens. Minha família no Brasil achou que eu queria um tempo pra pensar e minha irmã até chegou a ficar preocupada.

Em uma semana meu corpo chegou no Brasil, parti no dia 16 como o prometido, mas não sei de quem foi a idéia de me levar pra Rio Preto e publicar uma daquelas notinhas no jornal. Na sala do lado velavam um senhor de idade e lá pelas tantas estavam todos na porta a espiar de rabo de olho o choro descontrolado de uma quarentona vestida de D&G dos óculos escuros ao sapato preto. Era a amante; e depois do bafão da viúva que destruía coroas de flores e dos homens da família que punham a outra pra fora, acabei perdendo minha última oportunidade de ser o centro das atenções. Eu não era Brás Cubas, mas também queria ficar pra história. Talvez se eu o tivesse lido fosse minha a história diferente.

Caixão fechado, nenhum dos meus amigos de São Paulo e um fim de tarde a quarenta graus, come al solito. Tudo um grande tédio, até mesmo pra uma defunta... Ainda fui assunto em conversas nostálgicas por qualquer semana, mas aí a grama já tinha crescido na mesma altura das outras sepulturas e não fosse por um vasinho com flores frescas se poderia dizer que eu já estava ali há toda uma vida.

De noite
Maço novo, Marlboro Lights, que saudade. Respiro fundo como num campo de girassóis. Ou de qualquer outra coisa. Ela queria ser poeta, alma de poeta! Porque ela bebe tanto e ela fuma tanto e ela vai dormir tão tarde. Ela só dorme quando é dia de novo. Ela sempre foi assim, essa menina...

Ela devia ser poeta, viver e morrer como um poeta, mas ela vive em Friedrichshain e o supermercado custa tanto e ela vive lavando louca.
Um cazzo de cigarro dura tão pouco e rouba sete minutos da sua vida, então por que não dura ao menos sete minutos?!

Ela chega em casa e tá tão escuro e ela espera pra ascender as luzes porque ela abraça cada batente de porta como se pudesse abraçar alguém ali...Cada batente de porta é tão frio e ela sente aquele geladinho nas bochechas que sinceramente em português se tornam partes horríveis do próprio corpo.
Ela sente, ela escuta música no tal iPod que ela deu de presente e acabou ganhando de presente também. A seleção é bem deprê e a cerveja acabou. Whiskey?!
Xiii, ela ainda gosta dele. Ela tentou conversar ontem a noite, ela tentou e acabou tirando a roupa, porque ela sabe que assim consegue a atenção dele. Xiii...a mãe dela lê tudo o que ela escreve e as amigas acham que sexo antes do casamento: só com amor!

Pausa pro xixi...ela ascende outro cigarro de cinco minutos e quer desistir...de novo...
Vou te contar uma coisa: ela sempre desistiu e agora, pela primeira vez, ela é perseverante - eu gosto dessa palavra - e ela insiste em um menino, tadinho. Tudo o que ela devia ter feito por toda uma vida ela faz agora por esse menino. Ela só quer crescer, mãe!

Ela tá pensando, deixa ela, a seleção do iPod é longa e até ela dormir o mundo inteiro pode amanhecer.
Deixa ela...ela tem planos pra segunda-feira e domingo é domingo em qualquer lugar do mundo...
Ela escuta Mina...

Teorema do single
660 ml de cerveja pra andar na rua sem olhar pro chão.
0,7 mg de nicotina pra manter a pose no meio de desconhecidos.
8 cm, quanto mais no salto maior o ego.
00:30 e a Chapeuzinho vira lobo-mau.
3 shots de tequila pra que o som fique mais interessante.
1/2 hora esperando que alguém venha conversar.
2 segundos olhando, pra ele saber que eu não sou fácil.
10 minutos no banheiro porque eu não tenho tempo pra perder com sexo casual.
8 números ao caso pra não dar meu telefone de verdade.
7492, a senha do meu cartão de débito.
30 euros por uma balada de merda.
15 minutos até o próximo metrô chegar.
5 estações, 7 cliques no iPod, 3 soluços.
107 degraus até a porta de casa.
8 passos até o banheiro.
UMA sozinha refletida no espelho.

A lanterna mágica
Tac...tac...tac. Tac...tac...tac...e ela continuava ali, mariposa estúpida! Dentro do abajur de papel como se estivesse presa. Ela sabe que naquela lanterna japonesa existem duas saídas, mas continua lá dentro e tac...tac...tac... Se queima, se cansa e volta a girar em torno da lâmpada. Os poetas e os cretinos dizem que é amor, os cientistas provam que é só uma questão de química e a mariposa continua, tac...tac...tac...

Talvez ela não saiba que amanha de manha vou varrê-la pra fora da varanda como faço todos os dias com outros insetos ignorantes. Mariposa estúpida! Lá fora, no jardim, as árvores ultrapassam o quinto andar; é verão e todas as flores são perfumadas. Talvez ela nem saiba quantos jardins existam nessa cidade.

Por escolha própria ou resignação a mariposa vai morrer essa noite e amanhã eu vou contar como matei a aranha que se perdeu na minha casa.

Je repars à zéro
Ma basta, cosa vuoi ancora? Cambi paese? Dai, che scuse hai adesso? Dimmi, é perché parli già la lingua? Sara perché lui fa il poeta? Si, perché hai sempre voluto uno che facesse della vitta una gran bella poesia, come provi a farla tu.
La vive cosi, no? Un romanzo...ma che schema! Gli dovresti scrivere, come ti dicono tutti, non provargli a vivere. Comunque, non esistono nella realtà, allora basta. No?!
Não, não me basta. Cada vez é como se fosse a ultima chance, a primeira vez. Trilha sonora de um filme francês, um desconhecido e minha imaginação.
Ele diz que sou triste, ou que estou? No inglês fica difícil com o tal do verbo to be . Ele sente e pronto. Eu também sinto, mas não é saudade, que é diferente, que não tem tradução; eu sinto falta.
Ma poi cosa faresti?
E che me n'importa? Boh! Come l'ho spiegato: non lo so e non me ne frega niente...

Post it
O que eu posso te dizer? Vejamos...
O caso é que preciso medir as palavras, assim, para não ficar pesado, psicótico ou estúpido mesmo. Sabe como é, eu acabo poetizando demais alguns sentimentos simples, mas é porque na minha visão de recém-nascido tudo ainda gira em torno do meu umbigo e cada nova experiência me da uma sensação única de...de ser única.

Então tento explicar; sabe aquela varanda? Me tenta sempre: oito andares fariam um belo estrago. Não, não, não! Sem paranóia! Eu disse que podia parecer meio psicótico, mas depois de tudo eu não teria a coragem de mais uma vez fazer a escolha mais simples e cômoda. De certo não descarto um acidente de carro, uma heróica reação a um assalto (de fim trágico) ou mesmo a queda do meu avião. Essa ultima tem uma certa vantagem: perdi o medo de voar.

Ta certo, você queria que eu me abrisse, falasse dos meus problemas, não de como gostaria que eles tivessem fim. Ecco, os meus problemas... Tem uma tirinha da Mafalda onde uma das crianças compara seu próprio dedão com uma torre de igreja distante, no fim ela chega a conclusão que seu dedão é muito maior do que aquela torre porque é o seu e não o de qualquer outro. E assim os meus problemas só me atrapalham por uma questão de perspectiva.
O meu vazio - e com isso gostaria de passar uma idéia de falta completa - só é grande porque esta tão perto, ou ainda, tão dentro de mim. Fosse somente a falta de casa, emprego, dinheiro. Essas ficam fora, são comensuráveis, o que fica dentro é infinito.

Eu disse que acabaria poetizando a coisa. Inclusive tenho a sensação que qualquer gramático ou matemático tenha algo a contestar sobre essa última frase. Assim passamos para parte que torna estúpido este texto; e ainda não consegui ser clara.

Mas sinceramente, confessar os meus erros (óbvios) expor minha fragilidade e impotência diante da minha própria vida, assumir a culpa do meu fracasso e pedir - a quem nunca me negaria - ajuda, não seria o mesmo que desistir? Se eu fosse o presidente diria que é como abandonar o jogo antes do fim do primeiro tempo porque se está perdendo de cinco a zero. Eu acredito nos próximos 45 minutos, na prorrogação, nos pênaltis. Talvez devesse me desculpar por usar a sua casa como vestiário sem nem mesmo pedir licença, mas era você o meu coach.

Muito provavelmente não era isso o que você estava esperando e, mesmo tendo me esforçado pra escrever da forma mais honesta possível, não tenho certeza se conseguiria me abrir ainda mais sem ao menos a ajuda de um bisturi. De qualquer forma ainda te devo cinco euros e um pedido de desculpas.

Michaelis
I would like to talk with you, but is so hard.
Why don't you speak my language? Why don't you speak?
What is a happy end?! I'd say it happens when everything you could do is done.
But I go on, with a bad pronounce and no vocabulary.
Can you understand me? Find somebody who can. You need it.
Now my place is here, so close to you, so far.
God, you are so far! And I can go on just with stupid exclamations.
Yeah, let me shout, let me cry out to everybody: we lost the game!
And I'm glad, because I moved each muscle, each stone for you.
I'm glad and I do it to myself. One by one I pass by my fears.
I ask some money to my parents, I clean some dishes, I cook the dinner.
I found a lot of that people you hate and, man, they hate you too.
Just let me go, with few words and my bad pronounce.

Mendelssohn-bartholdy-park
Eu descreveria assim: fecha o olho bem apertado e prende a respiração o máximo que você puder; a gente fica em silêncio por qualquer segundo... Solta todo o ar e respira bem, bem rápido. Se eu olhar agora sei que você está sorrindo.

O cabelo - comprido - começa a ficar úmido, da raiz a ponta. Alguns se juntam no alto da testa deixando escorregar lentamente vez ou outra uma gotinha. Eu gosto se você me abraça e molha o meu rosto. Eu gosto se seus olhos estão tão perto dos meus que eu não enxergo mais nada.

Aí volto a sonhar, às vezes cores, às vezes montanha-russa; me perco dentro de mim mesma, procuro uma estrada, grito em silêncio. Serro os punhos tão forte e espero pra perder a batalha. Se fico zonza é por excesso de oxigênio.

Você observa de longe, aguarda meu pedido de socorro... Então me salva: resto de gente, inconsciente, com fome. Um olho no seu sorriso, o outro já descansando.

Eu descreveria assim, e você?