A consulta estava marcada para as quatro da tarde mas, como de costume em qualquer consultório renomado, a paciente teve que esperar outra meia hora antes de ser atendida. Era habitual em se tratando de um dos maiores especialistas do país. Sendo o seu um distúrbio aparentemente raro decidiu consultar-se com o melhor; evitando dividir o seu problema com qualquer outro terapeuta que ao final não lhe poderia dar uma resposta definitiva.
A recepcionista a acompanhou até a porta 21B onde o senhor de barba e cabelos brancos a esperava. A sala era muito bem decorada, as paredes em tons de azul claro combinavam perfeitamente com os móveis clássicos. Entre o divã e a poltrona de couro, optou por aquela que a possibilitava olhar seu interlocutor de frente, exatamente como pretendia enfrentar aquele seu problema. Feitas as apresentações, o doutor que muito se assemelhava a papai-noel, iniciou a sessão.
- Bem, eu decidi me consultar com o senhor porque já faz um tempo que eu tenho esse sentimento. Eu diria que ele começou há uns anos atrás. Na verdade, nos primeiros meses não era assim tão forte e eu pensei que fosse também uma coisa passageira, como seria normal em qualquer um. O fato é que a coisa foi se prolongando e ficando cada vez mais intensa e eu acho que agora se tornou crônico.
O doutor, em seu silêncio profissional, acenava positivamente com a cabeça enquanto a jovem prosseguia.
- Eu acho que também tem a ver com todas as coisas que foram acontecendo nos últimos tempos, que acabaram por acentuar essa minha condição. Porque normalmente, vai lá, existe uma situação, certo? que provoca uma reação e por conseqüência um sentimento, mas depois isso passa. No meu caso acho que foram muitos esses acontecimentos, um depois do outro e que continuam, de certa forma, mas que mesmo não sendo tão fortes só, digamos assim, pioram o meu caso.
Fazendo alguma anotações, o medico pediu para que a paciente continuasse.
- As minhas amigas continuam a me dizer que é normal e que vai passar. Que é impossível que eu me sinta assim pra sempre. Mas acontece que esse problema está acabando com a minha carreira! Eu sou atriz e desde que isso começou que tudo o que eu faço, todos os meus personagens acabam contaminados por esse sentimento. Por mais que tente não consigo sair desse ciclo.
A essa altura a paciente começava a mostrar um ar de ansiedade, mordendo os cantos do lábio inferior, como quem não estivesse pronto falar, mas tem a necessidade de expelir em palavras o que há tanto a assombrava.
- Doutor – fez uma pausa seguida de um suspiro – eu não agüento mais ser feliz.
Tirando os olhos de suas anotações pela primeira vez desde o inicio da sessão, o terapeuta a fixou espantado. Era a primeira vez que escutava uma coisa do gênero. Em quinze anos de escola medica e vinte de profissão nunca havia ouvido falar de qualquer coisa similar. Claro que existem históricos de felicidade em pacientes de todo o mundo, mas sempre passageira e momentânea. Pensando na possibilidade de estar de frente a um caso raríssimo, se não único na medicina, aproximou o pequeno gravador à sua paciente enquanto sugeria que essa contasse um pouco mais sobre a origem do problema.
- Pois bem, eu acho que eu sempre fui uma criança normal. Assim, por exemplo: se eu ganhava um sorvete eu ficava feliz, se o sorvete caia no chão eu ficava triste. Mas também eu não tinha muita noção de felicidade, era sempre uma questão de momento. Depois, na adolescência, tendo já entendido tais conceitos, comecei a almejar a felicidade plena como se isso fosse possível, mas já com a consciência de que não seria. Entende doutor? Eu buscava em satisfações fugazes atingir qualquer coisa de que se ouvia falar, mas que obviamente era inatingível. Eu seguia por base a idéia de que a felicidade era o oposto da tristeza, e que por isso experimentar um momento feliz dependia da experimentação do momento triste e assim por anos passava de momentos de depressão profunda à euforia desmedida. Ou seja, eu era normal!
O medico fez sinal com a cabeça para que ela continuasse.
- Então veio a fase adulta. E como qualquer individuo médio eu continuei a procurar pela felicidade. Eu encontrava um emprego, por exemplo, isso me fazia feliz e então eu começava a ver os defeitos da empresa, ou dos meus colegas e isso me fazia voltar ao estado de insatisfação de antes. Ou podemos falar dos tantos homens pelos quais me apaixonei e que depois de algum tempo se tornavam minha maior fonte de irritação ou os amigos mais fiéis e presentes com os quais eu sempre encontrava um motivo pra uma boa briga. A família, doutor! Esta sempre foi minha maior fonte de alegrias e inversamente, na mesma proporção, de dores de cabeça.
Voltando ao seu caderninho, o medico induzia a jovem a chegar a um momento mais preciso, aquele que haveria desencadeado tal felicidade. Pelo resto da sessão ouviu a respeito de seu marido, seus amigos; na sessão seguinte e pelos próximos meses muito se falou do trabalho, da família, enfim, de tudo o que a cercava. A mulher contava do quanto o marido era tranqüilo e generoso, como os amigos eram divertidos, os colegas simpáticos e a família estabilizada. Falava do orgulho que sentia de si mesma por ter ao seu redor pessoas tão maravilhosas que a respeitavam e a mantinham naquele estado de plenitude.
Passaram-se trinta encontros desde aquela tarde e naquelas trinta horas que sempre começavam em atraso o especialista conseguiu, se não encontrar uma cura, traçar um plano que fizesse com que a jovem tornasse a sua vida normal, de altos e baixos. Não seria fácil, sublinhou o medico, mas ao menos possível.
- Veja bem, a senhora sofre de depressão, assim como tantos dos meus pacientes, mas com a particularidade de essa ser uma depressão inversa que a mantém em um constante estado de satisfação. De praxe pessoas com o seu distúrbio tendem a se deprimir profundamente chegando à cogitar diariamente o suicídio por não merecem tamanha tristeza. Paralelamente a senhora diz se perguntar constantemente ao espelho se tal “felicidade” – e fazia o gesto das aspas enquanto dizia – é um seu mérito ou direito. Dos seus relatos nos últimos meses me parece claro que a senhora deixou de notar as imperfeições não só daqueles que a circundam, mas também de todos o ambiente em que está inserida. Meu conselho é que a senhora passe a analisar melhor suas relações e a si mesma, como temos feitos nos nossos encontros, a fim de encontrar novamente os defeitos, que obviamente todos temos e assim ter motivos para primeiro gerar pequenas brigas, picuinhas como se diz, e mais tarde grandes rupturas que a levarão a uma profunda tristeza.
Depois daquela sessão e já tendo marcado a da próxima semana, a jovem deixou o consultório em baixo de muita chuva. Por certo ainda estava feliz, mas bravejou contra os céus pela primeira vez em anos e condenou-se por ter esquecido o guarda-chuva.
Hoje a não mais tão jovem atriz está em seu terceiro casamento, não fala com os irmãos e seus amigos são sanguessugas dos quais não vê hora de se livrar. Sua ultima entrevista, de quando ainda fazia qualquer trabalho considerável, foi intitulada com a frase: Muito infeliz, obrigada!
"A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar"
(A Felicidade - Vinícius de Moraes)
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar"
(A Felicidade - Vinícius de Moraes)