Friday, August 5, 2011

Parabéns reformandos!


Uma cena interessante enquanto dirigia pra casa sábado a noite depois do trabalho: limusines por toda parte carregadas de formandos, graduandos da High School. Big deal!, como eles dizem aqui. O ginásio, como se chamava na minha época, também esta se formando, mas parece que os monstrinhos narigudos não compartilham do mesmo glamour.

Ah ensino fundamental, que pesadelo você foi. Um peito maior que o outro, dois braços perdidos no espaço, amigos que se tornavam inimigos de um dia pro outro, e vice e versa. Que inferno! Uma espécie de limbo que magicamente teve fim com a chegada do ensino médio. Não, eu fiz foi colegial mesmo.

É no colegial que os seus amigos são amigos pra sempre. Que você finalmente encontra um estilo. A vida fica mais cool, as festas tem mais sentido, é quando você se prepara pro melhor que esta por vir: freedom! E acabou escola, acabou acordar as seis da manhã, estudar matemática, física. Acabou responder presente, porque na facul tem lista e no trabalho tem ponto. Dirigir, ganhar dinheiro, matar a última aula da sexta pra tomar uma no buteco.

Foi lindo enquanto durou, foi lindo até meados dos 20. Puberdade de novo? O corpo que não se ajustava as roupas da lugar ao currículo falho que não se ajusta as ofertas de emprego. A mudança de estilo (uma por semana) da lugar a mudança de carreira: largo o escritório de direito e vou prestar belas artes ou trabalho de garçonete um ano nos States pra depois abrir minha pousada em Juquey?

Eu vejo a minha volta meus contemporâneos que aos tropeços se casam, tem filhos, se perdem pela Europa, se fazem workaholics...todos com aquela mesma sensação de 15, 20 anos atrás de que a vida é uma merda e que nós somos uns falidos.

Mas e se, e se tudo não passasse de uma espécie de ginásio, e se daqui uns anos, com os primeiros fios brancos que trazem os 35, também não chegasse um novo colegial?! E se aos 40 tudo mudasse e a gente se sentisse de novo fazendo parte do terceirão, pronto pra encher os mais novos de lições de moral, e fumar na porta da escola? Isso explicaria a crise da meia idade, uma terceira puberdade, ou purgatório, antes da felicidade eterna trazida pela demência na senilidade.

Enquanto a velhice não me traz essas respostas só posso desejar paciência e coragem a todos os formandos de 2011 que no próximo semestre irão estrelar no 1ª ano, seja ele qual for.

Wednesday, March 16, 2011

Sobre Tsunamis e imanusTs


Enquanto o mundo assistia aos noticiários, chocados pela a força da natureza e  mortificados pelas perdas sofridas no Japão, eu comecei a pensar no que poderia ter sido previsto dessa tragédia. Quase nada, foi minha conclusão. Os terremotos tem chacoalhado aquela parte do planeta desde sempre e a palavra Tsunami teve origem alí, querendo dizer: onda contra o porto. Por sorte, naquele país, o conhecimento de causa e a tecnologia avançada fizeram com que as perdas fossem menores do que poderiam ter sido. É só pensar no caso do Haiti em janeiro passado ou na Indonésia, em 2004.

Mas a minha cabeça não ficou por muito tempo na Ásia. Assim que me conectei à internet pra checar as últimas notícias me deparei com outra calamidade que chamou minha atenção. Alguma coisa esta acontecendo na sétima maior economia mundial. Todos os anos o país onde nasci, soma os prejuízos e os seus mortos após cada chuva de verão. Esse ano podia ter sido diferente, mas não foi.

De novembro à março, milhares de pessoas do norte ao sul do pais perderam suas vidas e outras centenas de milhares suas casas. São Paulo, a décima cidade global em riqueza é submersa (literalmente) todos os dias e a periferia ou melhor, as favelas, são lavadas do caminho mais uma vez deixando pra trás lama, desespero e ainda mais pobreza. Mais uma vez, esse verão podia ter sido diferente, mas não foi.

A minha vida inteira ouvi uma piada que eu costumava achar engraçada, ela conta a história da criação do mundo enquanto que, numa conversa com deus, dois anjos clamam por justiça. Como poderia o criador abençoar um lugar dando-lhe tanta beleza, clima ameno, todo o tipo de recursos naturais sem ao menos castigá-los com qualquer furacão, vulcão ou terremoto. Assim, que deus responde: “mas vocês verão os FDP eu vou colocar pra viver ali”.

Em dias como hoje ela já não me faz rir, porque um terremoto de escala 9 seguido de tsunami matou no Japão tanto quanto as habituais chuvas de verão no Brasil, isso nos últimos três meses. Não tem graça porque, assim como piada velha, a mesma cena infinitamente repetida perde seu significado. Não me diverte (espanta) mais porque dessa vez, como todas as outras vezes, poderia ter sido diferente, mas não foi.

Em lados opostos do mundo, Japão e Brasil são o reflexo no espelho um do outro. Enquanto de um lado se está preparado para o pior, do outro ainda luta-se penosamente para sobreviver às catástrofes diárias. É hora de mudar a postura, ou o próximo tsunami baterá à porta muito em breve. E eu só posso manter-me esperançosa por mudanças, como no Brasil nós sempre fazemos.

About Tsunamis and imanusTs

While the world is looking at the news, amazed by the power of nature and concerned about people in Japan I started to think what about that tragedy could have been prevented. Hardly anything, I guess. Earthquakes have been hitting that part of the planet since the beginning and tsunamis are so unpredictable in their intensity as any other natural power. Luckily, their knowledge and developed technology made the losses smaller then it could have been. Think about Haiti last January, or Indonesia, 2004.

But my thoughts did not stayed in Asia for a long time. As soon as I opened my browser today, to check up on the latest news, there was some other calamity that caught my eyes. Something is happening in the world’s 7th largest economy. Every year the country where I’m from and lived the first 20 years of my life, count their damage and dead after the summer rains. This time it could have been different, but it was not.

From November thru March, thousands of people from north to the south, have died and another hundreds of thousands have lost their houses. Sao Paulo, the 10th richest city in the world, is daily submersed (literally) and it’s suburbs, or truly - slums, have been washed away once again leaving behind mud, desperation and even more poverty. Again, this time it could have been different, but it was not.

For my whole life I heard a joke I used to think it was funny, it tells the story of world’s creation while in a talk with god, a couple of angels claim for fairness. How could the creator bless so much a place given to it an amazing weather, beautiful landscapes, all kinds of natural resources and no tornados, no volcanoes or earthquakes. So that god answer: “but you will see what kind of bastards I’m gonna put to live there”.

In days like today, it doesn’t make me laugh anymore, because a 9 grade earthquake, followed by a tsunami, killed as much in Japan as the habitual summer rains in Brazil, only in the past couple of months. It’s not funny because, as old jokes, the same scene repeated over and over again loses it’s meaning. It does not amuse (amaze) me because this time, and every other time, it could have been different, but it was not.

On the opposite sides of the world, Japan and Brazil are mirror images of each other. While one is prepared for the worst, the other still struggles to survive its daily tragedies. It’s time to change the picture, otherwise the next tsunami is gonna hit you very soon. And I just can keep hoping for change, as in Brazil, we all do.

Tuesday, February 1, 2011

Já foi tarde!

Então é isso, "amigos" do Facebook, tchau pra vocês. Acho que não tem mais nada pra gente compartilhar. Eu até que tenho tentado curtir as suas coisas, mas ficou claro para mim que a gente simplesmente não tem nada em comum. Eu não gosto das suas páginas, você não apóia as minhas causas, eu nunca participei dos seus eventos, e nunca jamais fui marcado em uma foto com você. Deve ser coisa minha: enquanto a maioria de vocês tem centenas de pessoas pra se conectar, eu me esforço para manter em um seleto grupo de dois dígitos.

Mas de verdade, quem são essas 91 pessoas? Então, uns dezoito são família e por família quero dizer da minha mãe ao meu primo de terceiro grau. E você podia até pensar que eu não largaria esse canal pra não cortar uma linha de comunicação, certo? Errado: quanto menos você vê a sua família mais você gosta deles, porque quando vocês se reúnem você percebe como vocês não tem nada em comum. Quer dizer, é bom saber quando eles casam, têm filhos, mas eu prefiro ouvir isso da minha avó, pra acabar tirando dela alguma fofoca. Além disso, aqueles que realmente se importam falam comigo por telefone, Skype, pessoalmente ou em sonhos. Sim, até mesmo os parentes mortos me contactam mais do que alguns familiares do Facebook.

Mas tem também o grupo dos "colegas". Um monte de gente que ia para a escola com você ou gente com quem você trabalhou, mas não aqueles que se tornaram amigos: eu tô falando dos que te "adicionaram" e você ficou constrangido de ignorar. Ou bem eles tão te usando para fazer volume, ou então ... não, eles tão te usando mesmo. E já que agora eu estou saindo daqui, posso dizer: se em dois anos na universidade você nunca me escolheu pro seu grupo de estudo, porque agora eu deveria deixar você ver as minhas fotos da lua de mel? E não não vem ao caso o fato que eu não deveria publicar um momento tão íntimo na internet.

O terceiro tipo de pessoas que eu estou tentando eliminar da minha vida digital, eu nomeei "amigos dos amigos", o tipo mais complicado de relacionamento. Basicamente você não os conhece, mas eles conhecem o seu pai, ou o seu melhor amigo, aí que você os adiciona em consideração aos seus queridos e acaba se arrependendo pra sempre de ter de partilhar os seus pensamentos com esse povo que te convida pra jogar Farmville e posta vídeos do Evanescence. Na maioria das vezes eles te adicionam porque a sua mãe sugeriu, e novamente, eles acham que é legal ter 687 contatos em suas listas.

Por último, mas não menos irritante: o tipinho enganador. Essa é a pessoa que você ficou tão feliz de encontrar online e depois sacou que ele não dá a mínima para você. Ele aceitou a sua amizade e acabou: ele não comenta o seu status, ele não curte os seus links ou álbuns, e não é capaz nem de escrever "Happy B-day" no seu mural. Essas pessoas não vão sequer chegar a saber que estou falando deles, porque eles não vão ler a minha nota! Então que se f*!

Para aqueles dez que sobraram: vocês sabem o meu endereço, tem o meu telefone, meu contato no Skype e meu e-mail. Talvez a gente não se fale o tempo todo, mas eu sei que a nossa amizade tá lá, porque há três meses atrás a gente trocou uns 5 e-mails em uma semana, e às vezes isso é suficiente para um ano inteiro. E eu amo você e/ou admiro você e/ou acho você do caralho e/ou a gente tem os mesmos pais, de forma que nós poderíamos passar o resto de nossas vidas separados, eu vou sempre compartilhar as minhas fotos íntimas com você.

So long, farewell!

That’s it Facebook “friends”, I’m leaving. I guess I don’t have anything else to share with you. I kind of have been trying to like your stuff, but really, it’s clear to me now that we just have nothing in common. I don’t like your pages, you don’t support my causes, I never attended any of your events, and we were never ever tagged in a picture together. It’s probably my thing: while most of you have hundreds of people to connect with, I have always made an effort to keep YOU in a select, two-digit group.

But let’s be honest, who are these 91 individuals? Well, eighteen of them are family, and by family I mean from my mom to my 3rd cousin. And you might think I wouldn’t leave this great channel otherwise I could cut a line of communication. You are wrong: less you see your family more you like them, coz when you guys get together you realize how you have nothing in common. I mean, I am happy when they get married and have kids, but I would rather hear that through my grandma so I also will end up hearing some gossip. Besides, those who care really talk to me, by phone, Skype, personally or in dreams. Yes, even dead relatives contact me more then some Facebook family.

There is also the “colleagues” group. A bunch of people who went to school with you or you worked together, but not the ones you became friends with: I’m talking about those who “add” you and you were embarrassed to ignore. Either they are using you to make volume in their accounts, or maybe…no, they are using you. So now that I’m leaving I can say: if in two years at the university you never choose me for your studies group, why should I now let you to see my honeymoon pictures? And it doesn’t matter I shouldn’t publish such an intimate moment on the internet.

The third kind of people I’m trying to eliminate of my digital life I nominated “friends of friends”, the most awkward type for a relationship. Basically you don’t know them, but they know your dad, or your best friend; so you add them in consideration to your beloveds, and then regret forever having to share your thoughts with people who invite you daily to Farmville and post Evanescence videos. Most of the time they friend you coz your mom suggested, and again, they think it’s cool to have 687 contacts on their list.

Last, but not least annoying sort of online person: the deluder. That is the person you got so happy to find online and then learned he doesn’t give a shit about you. He accepted your friendship and that was it: he doesn’t comment on your status, he doesn’t like your links or albums; he’s not even capable to write “Happy B-day” on your wall. These people are not gonna ever even get to know I’m talking about them, coz they won’t click on my note! So f* you! You are never gonna see it anyway.

To that 10 left: you know my address, you have my phone and Skype contact, you have my e-mail. Maybe we don’t talk all the time, but I know our friendship is still there coz 3 months ago we exchanged 5 e-mails in one week, and sometimes that is enough for a whole year. And I love you and/or admire you and/or think you’re fucking awesome and/or share the same parents with you so we could spend the rest of our lives apart, I would always share my intimate pics with you.

Tuesday, January 4, 2011

Atomic Poem

And so is our love,
two tiny little particles
who meet in a empty infinite as a consequence of chaos.

And coz there is movement,
and coz there is gravity
we stay there, rotating on the orbit of one another,
in an eternal unstable equilibrium,

The kind of fusion that if it loses an electron
– by hurry or by friction –
risks start a Big Bang.

Poema Atômico

O nosso amor é assim,
duas partículas de massa ínfima
que se encontram num vazio infinito por culpa do caos.

E porque tem movimento,
e porque tem gravidade
a gente fica ali, girando um na órbita do outro,
num equilíbrio eterno e instável,

Aquele tipo de fusão que se perde um elétron
– por pressa ou fricção –
corre o risco de um Big Bang.

Sunday, July 18, 2010

Sem dúvida, o melhor texto até agora!

Quanto mais se cresce, mais se tem certeza de que a vida é feita de incertezas. Quando se é bem pequenininho e um ano dura toda uma vida, é fácil ter uma resposta pronta pra tudo. Tereza tinha certeza, por exemplo, de que quando alguém morria se transformava em uma estrelinha no céu. Que quando ela dissesse coisas bem enroladas e incompreensíveis estaria se comunicando em uma outra língua. Ela também tinha certeza que todos a amavam, que domingo era dia de ir pro clube, que sorvete de morango era o mais gostoso. Desde seu nascimento todos comentavam que Tereza era uma menina cheia de certezas.

Então ela foi crescendo, o tempo foi se gastando e Tereza foi aprendendo a duvidar. Aprendeu a ganhar nota baixa na escola e a duvidar do seu potencial, aprendeu que a universidade não é pra todos e a duvidar de suas escolhas, Tereza aprendeu que ganhar dinheiro é difícil, que camisinha fura, que nem todo mundo é legal e a duvidar de que a vida seja justa.

Então a cada manhã lá estavam elas, misturadas com qualquer fio de cabelo na fronha do travesseiro. Uma a uma suas certezas foram deixando sua cabeça e um dia, enquanto se preparava pra escovar os dentes depois do café, Tereza deparou-se com o espelho refletindo assustado uma enorme careca. Ele preferiu não lhe dizer nada, ela também calou perplexa; ambos se olhando incertos: agora, completamente.

Não sabendo o que fazer, pensou em voltar para a cama e acordar o marido. “Mas e se ele se assustar mais que o próprio espelho? E se de susto ele perder também suas verdades e as dúvidas, de tão fortes, começarem a pipocar na superfície de seu crânio como brotoejas?” Na dúvida, enrolou uma toalha na cabeça e voltou para o quarto: “se é preciso acorda-lo, que seja sem surpresas” – pensou Tereza.

Eram quase três da tarde quando o marido entrou às pressas no apartamento onde a mulher o esperava duvidosa. Ele chacoalhava a sacolinha de plástico azul enquanto corria ao encontro da esposa. Tendo que enfrentar seu reflexo calvo mais uma vez, Tereza deu os últimos ajustes ao seu novo acessório. “Sintéticona” – disse o marido – “o melhor que pude arranjar num domingo”. De fato a peruca chanel castanha não lhe caia mal, apesar da cor uniforme lhe dar um certo ar de seriedade. Será que alguém notaria a diferença no trabalho? Tereza poderia ligar dizendo que não se sentia bem, mas não tinha certeza se essa seria uma boa idéia.

Então na manhã seguinte qual não foi sua surpresa ao ver que ninguém dos seus colegas havia notado que ao invés de sua cabeleira costumeira, jazia em sua cabeça um amontoado de fios sintéticos. Uma garota simpática de cabelos macios da recepção elogiou o novo corte, já do chefe grisalho ouviu um: “Excelente, senhora Pascoal”, mas ficou na dúvida se ele se referia à peruca, ou ao seu novo projeto.

Por telefone ela havia explicado a situação à mãe - que parecia não compreender a gravidade do problema - e durante o almoço as duas se encontraram. A senhora, uma amante das colorações e apliques, se apresentou com uma caixa de presente rosa e um cartãozinho, tom sobre tom. Ao abrir a surpresa, Terezinha, como era chamada pela mãe, deparou-se com um modelo capilar muito mais sofisticado e muito mais loiro que aquele que então portava. No cartão, explicou dona Berenice, havia o telefone de um excelente cabeleireiro, conhecido nacionalmente por seus dotes em fazer crescer cabelo até onde não deveria.

No decorrer da semana, por conselho de amigos, Terêreca – como eles a chamavam – também consultou-se com alguns terapeutas, acupunturistas, tarólogos e neurologistas. Nada, porém, parecia haver efeito sobre sua calvície de fios e de certezas; e o tempo, como sempre fizera, foi passando. Os mais chegados, aqueles que conheciam seu problema, continuavam a presentear-la com os mais diversos tipos de cabeleira e soluções: uns traziam cachinhos, outros citavam a bíblia, outros ainda argumentavam a ciência enquanto sugeriam novas técnicas de implante capilar.

Por agradecimento, ou por necessidade, Tereza trocava perucas e opiniões conforme a ocasião. Quando saia de balada usava um corte pós-punk para os amigos mais moderninhos, com a mãe se transformava em uma loira suntuosa, no trabalho usava seu chanelzinho sério, que não levantava suspeitas, com os amigos era a morena cacheada e confiante e com a família mantinha longos fios rebeldes, mas sempre amarrados com uma fivela dourada.

Todos pareciam empenhados – se não em resolver o seu problema, ao menos em aumentar sua coleção de perucas. Era de se admirar, diziam os amigos, como de um dia pro outro Tereza passou a ser decidida, forte. “Inacreditável”, pensava a mãe, enquanto agradecia aos céus por finalmente ver sua filha com um ar de vencedora, falando como uma verdadeira mulher de sucesso. O chefe também havia reparado em qualquer mudança na senhora Pascoal: mesmo os antigos projetos, descartados por ele, acabaram repensados por conta de tamanha segurança que agora a mulher resplendia.

Mas a verdade é que a noite, quando se fechava no banheiro para desmontar seu penteado, Tereza sabia que ali, no topo do seu ser, reinava uma evidente falta. Uma falta que uma bandana colorida tentaria esconder até a manhã seguinte, quando ela voltava a ser a mulher cheia de certezas, pelo menos para o resto do mundo.

E foi em uma dessas noites que o marido, até então um observador calado, resolveu se manifestar. Roberto aproximou-se de Tereza decidido, como era de seu costume e gentilmente levou as mãos da esposa aos seus cabelos. Ela os tocou carinhosamente, mesmo sem ter certeza do porque do gesto. Eram de uma maciez! Ao seu pedido, a mulher então fechou os olhos ao que seu tato, de improviso deixou de encontrar os fios dourados que ela tanto adorava. Reabriu os olhos rapidamente e qual não foi sua surpresa ao ver o marido completamente careca!

Mais incerta do que nunca, a mulher agora dividia sua atenção entre o crânio pelado do esposo e sua cabeleira estendida na poltrona ao lado. Nas horas seguinte, Roberto passou a explica-la como muitos anos antes havia perdido todas suas certezas, e com elas seu precioso cabelo. Mostrou-a sua coleção escondida no alto do armário, que diferentemente daquela de Tereza, era composta por modelos exatamente iguais. Tereza escutava atenta: apesar da loucura que cercava toda aquela situação, parecia entender e aceitar tudo o que o marido a confidenciava. Mas ao final daquela noite era uma a dúvida que a assombrava de verdade: se o marido havia realmente perdido todas suas certezas, como poderia ele estar certo de que ela era a mulher de sua vida? O que havia sido feito da certeza de que viveriam juntos e felizes para sempre?

- De fato, eu não tenho certeza de nada disso – confirmou o marido, deixando a mulher ainda mais confusa e triste – No entanto, é isso o que eu quero que aconteça – continuou – Quando perdi minhas certezas aprendi a seguir minhas vontades.

A manhã seguinte procedeu como qualquer outra manhã de domingo: ovos mexidos, pão na chapa, suco de laranja e café. O casal leu o jornal juntos na varanda e no final da tarde - cada um com seus fios falsos e suas incertezas - saíram para um passeio a pé seguido de um sorvete. Nada parecia ter mudado naquela casa de carecas, só a certeza de que além das dúvidas, ambos partilhavam as mesmas vontades.

Monday, June 28, 2010

Por isso vivo de vendaval...

A consulta estava marcada para as quatro da tarde mas, como de costume em qualquer consultório renomado, a paciente teve que esperar outra meia hora antes de ser atendida. Era habitual em se tratando de um dos maiores especialistas do país. Sendo o seu um distúrbio aparentemente raro decidiu consultar-se com o melhor; evitando dividir o seu problema com qualquer outro terapeuta que ao final não lhe poderia dar uma resposta definitiva.

A recepcionista a acompanhou até a porta 21B onde o senhor de barba e cabelos brancos a esperava. A sala era muito bem decorada, as paredes em tons de azul claro combinavam perfeitamente com os móveis clássicos. Entre o divã e a poltrona de couro, optou por aquela que a possibilitava olhar seu interlocutor de frente, exatamente como pretendia enfrentar aquele seu problema. Feitas as apresentações, o doutor que muito se assemelhava a papai-noel, iniciou a sessão.

- Bem, eu decidi me consultar com o senhor porque já faz um tempo que eu tenho esse sentimento. Eu diria que ele começou há uns anos atrás. Na verdade, nos primeiros meses não era assim tão forte e eu pensei que fosse também uma coisa passageira, como seria normal em qualquer um. O fato é que a coisa foi se prolongando e ficando cada vez mais intensa e eu acho que agora se tornou crônico.

O doutor, em seu silêncio profissional, acenava positivamente com a cabeça enquanto a jovem prosseguia.

- Eu acho que também tem a ver com todas as coisas que foram acontecendo nos últimos tempos, que acabaram por acentuar essa minha condição. Porque normalmente, vai lá, existe uma situação, certo? que provoca uma reação e por conseqüência um sentimento, mas depois isso passa. No meu caso acho que foram muitos esses acontecimentos, um depois do outro e que continuam, de certa forma, mas que mesmo não sendo tão fortes só, digamos assim, pioram o meu caso.

Fazendo alguma anotações, o medico pediu para que a paciente continuasse.

- As minhas amigas continuam a me dizer que é normal e que vai passar. Que é impossível que eu me sinta assim pra sempre. Mas acontece que esse problema está acabando com a minha carreira! Eu sou atriz e desde que isso começou que tudo o que eu faço, todos os meus personagens acabam contaminados por esse sentimento. Por mais que tente não consigo sair desse ciclo.

A essa altura a paciente começava a mostrar um ar de ansiedade, mordendo os cantos do lábio inferior, como quem não estivesse pronto falar, mas tem a necessidade de expelir em palavras o que há tanto a assombrava.

- Doutor – fez uma pausa seguida de um suspiro – eu não agüento mais ser feliz.

Tirando os olhos de suas anotações pela primeira vez desde o inicio da sessão, o terapeuta a fixou espantado. Era a primeira vez que escutava uma coisa do gênero. Em quinze anos de escola medica e vinte de profissão nunca havia ouvido falar de qualquer coisa similar. Claro que existem históricos de felicidade em pacientes de todo o mundo, mas sempre passageira e momentânea. Pensando na possibilidade de estar de frente a um caso raríssimo, se não único na medicina, aproximou o pequeno gravador à sua paciente enquanto sugeria que essa contasse um pouco mais sobre a origem do problema.

- Pois bem, eu acho que eu sempre fui uma criança normal. Assim, por exemplo: se eu ganhava um sorvete eu ficava feliz, se o sorvete caia no chão eu ficava triste. Mas também eu não tinha muita noção de felicidade, era sempre uma questão de momento. Depois, na adolescência, tendo já entendido tais conceitos, comecei a almejar a felicidade plena como se isso fosse possível, mas já com a consciência de que não seria. Entende doutor? Eu buscava em satisfações fugazes atingir qualquer coisa de que se ouvia falar, mas que obviamente era inatingível. Eu seguia por base a idéia de que a felicidade era o oposto da tristeza, e que por isso experimentar um momento feliz dependia da experimentação do momento triste e assim por anos passava de momentos de depressão profunda à euforia desmedida. Ou seja, eu era normal!

O medico fez sinal com a cabeça para que ela continuasse.

- Então veio a fase adulta. E como qualquer individuo médio eu continuei a procurar pela felicidade. Eu encontrava um emprego, por exemplo, isso me fazia feliz e então eu começava a ver os defeitos da empresa, ou dos meus colegas e isso me fazia voltar ao estado de insatisfação de antes. Ou podemos falar dos tantos homens pelos quais me apaixonei e que depois de algum tempo se tornavam minha maior fonte de irritação ou os amigos mais fiéis e presentes com os quais eu sempre encontrava um motivo pra uma boa briga. A família, doutor! Esta sempre foi minha maior fonte de alegrias e inversamente, na mesma proporção, de dores de cabeça.

Voltando ao seu caderninho, o medico induzia a jovem a chegar a um momento mais preciso, aquele que haveria desencadeado tal felicidade. Pelo resto da sessão ouviu a respeito de seu marido, seus amigos; na sessão seguinte e pelos próximos meses muito se falou do trabalho, da família, enfim, de tudo o que a cercava. A mulher contava do quanto o marido era tranqüilo e generoso, como os amigos eram divertidos, os colegas simpáticos e a família estabilizada. Falava do orgulho que sentia de si mesma por ter ao seu redor pessoas tão maravilhosas que a respeitavam e a mantinham naquele estado de plenitude.

Passaram-se trinta encontros desde aquela tarde e naquelas trinta horas que sempre começavam em atraso o especialista conseguiu, se não encontrar uma cura, traçar um plano que fizesse com que a jovem tornasse a sua vida normal, de altos e baixos. Não seria fácil, sublinhou o medico, mas ao menos possível.

- Veja bem, a senhora sofre de depressão, assim como tantos dos meus pacientes, mas com a particularidade de essa ser uma depressão inversa que a mantém em um constante estado de satisfação. De praxe pessoas com o seu distúrbio tendem a se deprimir profundamente chegando à cogitar diariamente o suicídio por não merecem tamanha tristeza. Paralelamente a senhora diz se perguntar constantemente ao espelho se tal “felicidade” – e fazia o gesto das aspas enquanto dizia – é um seu mérito ou direito. Dos seus relatos nos últimos meses me parece claro que a senhora deixou de notar as imperfeições não só daqueles que a circundam, mas também de todos o ambiente em que está inserida. Meu conselho é que a senhora passe a analisar melhor suas relações e a si mesma, como temos feitos nos nossos encontros, a fim de encontrar novamente os defeitos, que obviamente todos temos e assim ter motivos para primeiro gerar pequenas brigas, picuinhas como se diz, e mais tarde grandes rupturas que a levarão a uma profunda tristeza.

Depois daquela sessão e já tendo marcado a da próxima semana, a jovem deixou o consultório em baixo de muita chuva. Por certo ainda estava feliz, mas bravejou contra os céus pela primeira vez em anos e condenou-se por ter esquecido o guarda-chuva.

Hoje a não mais tão jovem atriz está em seu terceiro casamento, não fala com os irmãos e seus amigos são sanguessugas dos quais não vê hora de se livrar. Sua ultima entrevista, de quando ainda fazia qualquer trabalho considerável, foi intitulada com a frase: Muito infeliz, obrigada!


"A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar

Voa tão leve

Mas tem a vida breve

Precisa que haja vento sem parar"

(A Felicidade - Vinícius de Moraes)

Thursday, June 24, 2010

Milan, 24th of June, 2010

Dear Bb,

It’s 15:50 on the clock, the other girl just left for her lunch break and I’m already bored. I found this piece of paper to write you a letter, as we promised before but never did. Damm internet! She seems nice but in a bit of a defensive mood. I guess I ask too many questions and she tries to paint a better image of what she thinks is not that good in her life. She is very pretty but complains about her legs, “too fat” she said, but I think they are just fine.

Some Russian girls want to try a couple of shirts, they asked me for the XS even though they fit a XL. Russian girls tend to be very exuberant, mostly with bad taste. Dear lord! They just left the fitting room wearing the shirts as a dress, no pants and I can see the underwear of the blonde one`: lace fabric. Now I can say I saw Gorbachev through her glasnost! Yeahp, it was bold.

16:23, time goes slower coz I keep checking the clock every 30 seconds. It’s funny how a second can last an eternity and months can pass in a minute. How come the Japanese think you should have a very settled routine to live longer? They definitely work their minds upside down.

We do have many Japanese clients actually. But they buy at the shop in front, where stuff is colorful. The girl, who works there, stopped by last evening for a chat. She studied fashion and lived for a year in London. While I’d have a free lesson about silk and crepe she confessed she wants to leave Milan again and I bet she is not the only one. Mostly I work with girls and gay guys, but the very old ladies are my favorite. They always smile at me passing by the shop and many offered help at my first closing alone.

Some time has passed since my last lines, I went down to pick up a dress from storage, my colleague came back and now she is having a discussion about hair with the girl from the shop on the left. She thinks she died it too blond and my coworker says it’s not. When they asked my opinion I suggested she could die it red. They ignored it with lousy faces. I should work on my friend-making skills.

I’m supposed to have my break now, the employees’ bar is cheaper, but downstairs I can smoke. Makes me think about my last job, when I’d have 20 minutes to eat, smoke, pee and send you a message. I feel lonely having a whole hour to do the same.

Hey, I’m back. I ended up having lunch with another girl who works at the shop on the left. She is very cute, very young and really lost. I’m lucky not to work there. They earn commission and the boss is super stressful. She is on the last shift as well, so we can keep each other company. I heard her stories about her ex-boyfriend, such a jerk!

You know, writing you a letter reminds me of all the letters I have from my mom when she first moved to Sao Paulo. She used to work at this furniture shop, kind of fancy, where she had to sit alone in a armchair and wait for the clients. She did it for 7 months and that was the only income of the family through that time. I hope not find myself in the same situation in some years from now, even though I’m proud of everything she did.

Viva! I just sold $731,50 to an Italian lady! Can you believe she paid $101 for a shirt? I could buy 20 of mine and drink a coffee with the same money. It’s also true they fall apart after a month, but the first time her maid throws hers in the washing machine by mistake it also will become un-wearable.

Another hour and I’m free! I cleaned the glass tables for the third time today. I do so as soon as I see a fingertip, to make the time pass, to keep me occupied. The racks are methodically tidy and I already checked the changing room for lost hangers. I guess that is it. Just need to close the register now. Hope to see you on Skype later. Love you!